Quem tem medo de Charles Darwin?

*Ricardo Oliveira da Silva


No livro Homo Deus: uma breve história do amanhã, o historiador israelense Yuval Noah Harari combinou os conhecimentos na área de ciência, história e filosofia para entender quem somos e estabelecer hipóteses sobre nosso destino nesse mundo enquanto espécie homo sapiens. Nesse processo investigativo ele dedicou algumas páginas para refletir sobre as consequências da teoria da evolução sobre a identidade que o homo sapiens criou para si mesmo ao longo do tempo com o amparo das narrativas religiosas.

A teoria da evolução foi consagrada com o livro A origem das espécies, publicado em 1859 pelo naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882). Em linhas gerais a tese central do livro se apoia no princípio de que todas as espécies vivas existentes no planeta, incluso aí o homo sapiens, descendem por modificação de um ancestral comum. A dinâmica evolutiva das espécies seria baseada pelo processo de seleção natural, pautado tanto por fatores ambientais como biológicos, o qual permite a sobrevivência dos mais aptos.

Segundo Yuval Noah Harari, a teoria da evolução de Charles Darwin desperta temores por parte de grupos religiosos que possuem uma visão literal de textos religiosos, como no caso de certas correntes cristãs. Do ponto de vista da ortodoxia bíblica, o ser humano foi criado como imagem e semelhança de Deus, sendo portador de uma essência imutável (alma) que, ao ser livre de pecados, está destinado a viver na Eternidade com o Criador.

Contudo, do ponto de vista da teoria da evolução, o ser humano não seria portador de uma essência imutável e eterna (alma). O homo sapiens seria produto da evolução biológica ocorrida pelo processo de seleção natural no decorrer de um vasto período de tempo. Para Charles Darwin, a origem do ser humano não teria relação com nenhum ato divino. Consequentemente, o homo sapiens não está destinado a viver na Eternidade (para os cristãos, o paraíso prometido pela Bíblia). E isso é motivo de arrepios para muitas pessoas.

No Brasil das últimas décadas há uma crescente simbiose do poder político com grupos religiosos denominados genericamente evangélicos, sendo que no passado isso era mais forte com grupos católicos. Nesse processo, determinados grupos religiosos tentam moldar o debate sobre políticas públicas a sua visão de mundo. Um exemplo ocorreu na última sexta-feira (24/01/2020) com a nomeação do reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Benedito Guimarães Aguiar Neto, como o novo presidente da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão responsável pela expansão e pela consolidação da pós-graduação nas universidades do Brasil.

O novo presidente da CAPES, reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie desde 2011, defende o criacionismo (origem bíblica do mundo e do ser humano) em contraponto à teoria da evolução. Segundo reportagem da Folha de São Paulo, no ano passado, o reitor anunciou que a Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo ampliaria os estudos do design inteligente, uma designação contemporânea para o criacionismo. Além disso, a universidade mantém um núcleo de estudos sobre o tema desde 2017.

A ideia de contraponto pode induzir a pensar que tanto o criacionismo quanto a teoria da evolução se fundamentam nos mesmos moldes epistêmicos, o que é um equívoco, uma vez que o criacionismo se baseia em textos bíblicos e na fé pessoal do indivíduo, enquanto a teoria da evolução se baseia no método científico, vide A origem das espécies. Nesse debate é possível perceber que o criacionismo busca subordinar a teoria da evolução ao desígnio de um Criador e, com isso, ser a narrativa hegemônica no ensino.

Já no que tange ao ensino, o conhecimento da teoria da evolução não implica em defenestrar formas alternativas de entender o mundo que apareceram ao longo do tempo. E digo isso na condição de professor de história: não se pode estudar a Roma Antiga sem apontar o papel do cristianismo em sua história; não se pode estudar a história dos povos árabes a partir do século VII sem conhecer o islamismo; não se pode estudar a história dos povos indígenas e dos povos africanos sem conhecer sua fecunda visão de mundo religiosa.

A tentativa de oferecer uma conotação religiosa ao sentido das políticas públicas no Brasil, como a defesa da promoção do criacionismo em detrimento da teoria da evolução, não busca ampliar o conhecimento das formas de entender o mundo, mas impor uma visão de mundo em detrimento de outras formas da episteme. Algo que pode ser pautado tanto por interesses religiosos quanto políticos. Para quem age assim, Charles Darwin causa medo.

* Professor do Curso de História da UFMS/CPNA

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